Eu e a Religião - Parte I

Este artigo é a primeira parte de um longo ensaio sobre minha relação com a religião. Aqui eu conto como foi a minha infância e adolescência.


Parte I - No Princípio


Minha lembrança mais antiga em relação à religião é a de minha mãe me levando a uma rezadeira, onde a velha balançava um ramo com folhas em volta da minha cabeça. Eu devia ter uns quatro anos. Da infância, lembro também de meu pai desejando que eu dormisse com Deus, Nossa Senhora e o Anjinho Andy. E também de minha mãe indo a um templo do Racionalismo Cristão. Cresci ouvindo os afro sambas de Clara Nunes e fui batizado na igreja católica com cinco anos. Fica claro que cresci num ambiente bem sincrético.

Esta é a história da minha relação com a religião.

Nascido numa família católica não-praticante, só fui começar a frequentar a igreja com dez anos de idade, após a morte da minha mãe. Alguém da família achou que ser catequizado seria bom pra mim, então comecei a ir à igreja nas manhãs de domingo. Participei das aulas de catequese durante uns meses mas não cheguei a concluir, já não lembro mais porque. Desconfio que seja porque achava muito chato.

Na escola, depois desse período, participava das aulas de religião na turma das católicas. Foi nessa época que eu me dei conta de que haviam pessoas que não eram católicas, porque havia também a turma das evangélicas. Até este ponto, eu achava que todo mundo era católico e pronto. Lembro claramente de quando eu e um amigo fomos preencher uma ficha que perguntava nossa religião. Quando ele ficou na dúvida, minha resposta foi católico, ué! Acho que até então eu pensava que as pessoas evangélicas que eu conhecia eram católicas mais fervorosas e linha dura.

Foi por aí também que conheci o termo protestante, quando o professor de ciências meio que se desculpou ao nos ensinar sobre a evolução das espécies. Eu sei que tem gente que é protestante e discorda disso, não sei se alguém aqui é, mas estou aqui pra ensinar ciência, ok?

No fim da adolescência comecei a desenvolver um forte preconceito contra os crentes. A influência de pessoas próximas e a convivência com alguns religiosos mais fundamentalistas contribuiu para isso. Um exemplo foi uma aluna de um curso de informática que se recusou a criar pastas com nomes de estilos musicais como pagode e rock. Outro foi um camarada que ficou acusando desenhos animados e músicas de conterem mensagens subliminares demoníacas. A explosão da quantidade de igrejas evangélicas e seu forte proselitismo durante os anos 90 também contribuíram.

Cresci crendo na existência de um deus, o Deus cristão, mas não acreditava nem me preocupava em seguir os dogmas de nenhuma igreja. Sobre a criação, me firmava numa hipótese mista de religião e ciência. Eu acreditava que a evolução tinha acontecido exatamente como a teoria descrevia, mas que tudo tinha o comando de Deus por trás dos panos. Se Deus era tão poderoso, porque era tão difícil pras pessoas acreditarem que Ele tinha sido capaz de mexer os pauzinhos pra que a evolução fosse algo que pudesse acontecer como aconteceu? Sobre a Bíblia, achava que ela era na verdade uma grande parábola, não um livro de história que narrasse fatos concretos.

Eu via as religiões mais como um fato cultural e muitas vezes folclórico. Pensava que as pessoas simplesmente cresciam num contexto em que uma religião era tão presente em seu círculo social ou familiar que elas, por padrão, eram adeptas dela. Um exemplo disso são as pessoas brasileiras que dizem não seguir nenhuma religião mas que acreditam em Deus. Se nascessem na Índia, essas pessoas provavelmente diriam não serem hindus mas acreditarem em Shiva.

Entrei na casa dos vinte anos acreditando também ter um anjo da guarda que me acompanhava o tempo todo e uma filosofia de vida que bebia de diversas fontes, mesclando ideias de várias religiões. Gostava da ideia da existência de um plano místico, espiritual, e construía meu entendimento sobre ele, povoando-o com Deus, espíritos e anjos da guarda.

Eu costumava dizer que essa minha mescla filosófica de ideias era como conhecer um pouco de cada caminho possível. Com o tempo passei a pensar que nunca chegaria a lugar nenhum se não seguisse um caminho até o final. E isso me fez desejar abraçar uma religião.

***

A seguir, Conversão.

2 comentários:

Uina Carla Moutinho Lima disse...

Muito interessante! Aguardando ansiosa...

Michelle Santos disse...

Eu tbm tinha esse pensamento na infância, para mim todos eram evangélicos, no ensino médio percebi que talvez houvessem alguns de outras religiões. E só na faculdade que descobri que existiam inclusive ateus e agnósticos! E aí comecei a mudar um pouco minha visão sobre religião e ver que existiam sim outras ideologias e não só a que aprendi desde criancinha.